Por Fernanda Sypniewski
O drama “Um filho” (2023), dirigido por Florian Zeller – também diretor de “Meu pai” (2020) – conta a história de Peter (Hugh Jackman) e de seu filho adolescente, Nicholas (Zen McGrath), levantando questões sobre a depressão na adolescência. A proposta, aqui, não é fazer uma crítica ao filme, aos atores, ao diretor ou à história propriamente dita, mas sim mostrar um pequeno recorte, talvez psicológico, da dinâmica familiar e do adolescente.
No enredo, Peter recebe a inesperada visita de sua ex-esposa, Kate, que anuncia que o filho do casal está “matando aula”. Junto à notícia, vem o pedido para que Peter converse com Nicholas. Essa visita deixa a impressão de que se trata de (mais) um filme sobre adolescentes rebeldes, porém ao longo das cenas seguintes vemos algo diferente: muito mais do que rebeldia, Nicholas tem profundos sintomas depressivos.
O espectador consegue antecipar aquilo que para Kate e Peter não está claro. As cenas com Nicholas envolvem choros que parecem não ter uma causa, sofrimentos que são desencadeados sem motivo aparente. O adolescente não encontra palavras para enunciar seu sofrimento, mas sentimos seus abismos e seus alívios instantâneos.
O filme aborda inúmeras questões além da depressão, e cada uma delas pode tocar de maneiras diferentes o espectador. Nicholas é um adolescente errante, perdido no mundo. Ele não consegue estabelecer relações que não sejam entre seus familiares. O jovem se mostra muito ligado a essa mãe e, de certa forma, pede pela presença do pai após a separação do casal. Ao longo da obra, vemos fragmentos da história dessa família.
O adolescente registra em seu corpo as marcas de sua angústia, por meio de cortes. Sua dor física é a expressão de algo que não vai bem. Nas poucas cenas apresentadas sobre a história de Peter, o pai, vemos uma relação tensa e traumática com seu próprio pai. Há um modelo, que passa de geração em geração, onde não existe acolhimento, apenas ordens. Ao longo do filme, percebe-se a dificuldade de Peter em acolher o sofrimento do filho, assim como seu pai não conseguiu acolhê-lo quando, em sua adolescência, sua mãe faleceu.
O protagonista, ao invés de ir para a escola, fica vagando pela cidade, um vagar que é uma busca de sentido sobre o que está acontecendo. Em sua primeira tentativa de suicídio, ele consegue reunir os pais, que são obrigados a cuidar dele. Sensibilizado, o casal se vê unido novamente. Provavelmente, a tentativa foi um apelo para que os pais cuidassem dele.
Nas consultas com o médico responsável pelo tratamento, os pais oscilam entre a melhor escolha: prosseguir com o tratamento institucional, ou levar o filho para casa? É uma decisão muito difícil. Os próprios pais também são pouco acolhidos pela instituição, tanto em suas dores quanto em suas dúvidas. Há mais regras e estatísticas do que propriamente uma escuta: as informações do hospital são passadas de forma protocolar. Os pais, desamparados, perdidos diante dos diversos caminhos, decidem levar o filho para casa.
Na primeira cena após a saída do hospital, os três estão reunidos na sala e Nicholas se mostra muito calmo, assumindo uma postura totalmente diferente daquela de minutos antes no hospital. Comportamento esse que é um tanto preocupante, pois quando o rapaz se mostrou dessa forma, talvez uma ideia já estivesse definida dentro dele. A cena assume um tom de despedida: entendemos então que sua decisão já foi tomada. É assim que o adolescente se despede dos pais. Sua segunda tentativa é definitiva. Em seu último ato, o jovem mata também as esperanças do pai e da mãe.
Na maioria das vezes, não é possível reduzir o ato do suicídio a uma única causa ou explicação. Antes, trata-se de uma pluralidade de possibilidades. No caso do filme, a dimensão da causalidade é deixada em aberto, possibilitando que todos conjecturem as motivações sem chegar a uma conclusão. O pai fica com a dura dor da sobrevivência, chegando a alucinar com um desfecho diferente, onde o filho poderia ter escrito de outra maneira sua própria história e escolhido a vida. No desejo alucinatório do pai, Nicholas consegue transformar seu sofrimento em palavras: o jovem escreve um livro, chamado “Death can wait”.
Ao longo de “Um filho”, percebemos que há algo transgeracional na família paterna que precisa ser curado. No filme como na vida, muitas das coisas não elaboradas em uma geração atravessam a geração seguinte, e a outra, e a outra… até que em algum momento aquilo possa vir à tona, possa ser percebido e elaborado.
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Serviço
“Um filho” (The son, 2023)
Direção de Florian Zeller

