Comentários sobre o episódio 9 de Megalobox

Por Gustavo Denani

Últimos momentos do quarto round. Gearless Joe enfrenta Mikio Shirato, cuja prótese é conectada a uma inteligência artificial que aprende os movimentos do adversário no correr da partida. Gearless Joe, como o nome diz, enfrenta seus adversários sem nenhuma prótese, como em uma luta de boxe normal. Além de aprender os movimentos do adversário, a prótese de Mikio gradualmente se sincroniza com ele, intensificando a sinergia entre a coordenação motora de seu corpo e os cálculos algorítmicos que ela executa.

Enquanto Mikio conta com sua prótese, os computadores conectados a ela e os técnicos que monitoram o nível de sincronização, Joe conta com o técnico Nanbu e Sachio, o cornerman. O desdobramento da partida aponta para dois processos distintos entre Joe e Mikio: enquanto este tornava-se um com sua prótese, Joe se diferenciava cada vez mais de Nanbu e Sachio, eclodindo no momento decisivo de confiar mais em seu instinto do que no técnico. Em outras palavras, entre as vozes de sua equipe e seus movimentos havia a experiência das lutas anteriores e a memória corporal advinda delas. Mikio, por sua vez, delegava suas decisões aos algoritmos da prótese, cuja aprendizagem em tempo real remete às tecnologias contemporâneas de deep learning e redes neurais.

Uma interpretação possível, porém limitada, do episódio 9 de Megalobox é a do triunfo do humano sobre a tecnologia. Ao não discernir quais decisões eram suas e quais eram da prótese, Mikio não somente foi pego por uma questão sociotécnica sobre agência humana, mas também por uma questão prática do contexto da luta. É justamente no fracasso de Mikio em respondê-las que o episódio faz uma crítica sutil à condição contemporânea de dependência algorítmica.

Assim, tanto Joe quanto Mikio são parte de sistemas cibernéticos distintos. Mikio traduz estímulos externos em códigos de máquina a serem calculados pela IA, que, por sua vez, retorna o resultado em estímulos elétricos, sugerindo (irresistivelmente) a próxima ação a ser executada. Joe, por sua vez, escuta as vozes de Nanbu e Sachio, mas entre uma enunciação e a ação que ela performa, há uma indeterminação feita de experiência e memória (a do cérebro, músculos e órgãos, não a inscrita em pentes RAM ou disco rígido – e se pararmos para pensar nos nomes que atribuímos a artefatos digitais, eles remetem muito pouco ao objeto original, afinal, como comparar isso que acontece quando lembramos de algo, com uma sequência de bits?). Em vez de possibilidades calculadas e materializadas em impulsos elétricos, ordens e verbos no imperativo. É essa a distinção que fez a diferença no final da luta. Joe sabia o que tinha que fazer justamente por duvidar de Nanbu. Mikio, ao tentar assumir as rédeas de sua autonomia, não soube o que fazer.

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Gustavo Denani é pesquisador na área de Antropologia Digital e esta é sua estreia na Cena Revista.

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Serviço

Megalobox (anime)

Direção: Yō Moriyama

Escrito por: Katsuhiko Manabe e Kensaku Kojima