Por Fernanda Sypniewski
O ano de 1930 ficou marcado por dois acontecimentos importantes no que diz respeito ao reconhecimento da escrita literária de Sigmund Freud: 1) em julho a cidade de Frankfurt lhe outorgou o Prêmio Goethe; e 2) mais tarde, ele teve seus escritos tomados como objeto de estudo pelo crítico suíço Walter Muschg (1898-1965), num ensaio intitulado Freud como escritor. Apesar dos reconhecimentos, não é fácil encontrar nos textos freudianos apreciações sobre sua própria escrita.
Uma exceção é o artigo Sobre a Psicopatologia da vida cotidiana (1901). Nele, Freud tece um breve comentário em relação à escrita de modo geral, dizendo que “a maneira clara e inambígua de escrever mostra-nos que o autor está de acordo consigo mesmo; quando encontramos uma expressão forçada e retorcida, que segundo o apropriado dito, aponto para mais um alvo, ali podemos reconhecer a intervenção de um pensamento insuficientemente elaborado, complicado, ou escutar os ecos velados da autocrítica do autor”.
A prosa freudiana varia de acordo com o assunto tratado, o tipo de texto e o público ao qual se dirige. Por exemplo, um caso clínico não exige o mesmo grau de abstração que um ensaio teórico ou um texto metodológico. Um traço marcante da escrita de Freud é a relação próxima que ele tenta estabelecer com o leitor, mostrando uma consideração por quem o lê. Isso se torna evidente em três níveis: no primeiro, há coisas que todo escritor deve dar como sabidas por quem o lê; no seguinte, outras que ele deve supor como sabidas, mesmo que não o sejam; e por último, há coisas que ele deve considerar desconhecidas pelo leitor. Freud, em seus escritos, busca distinguir esses níveis de conhecimento e assim antecipar possíveis dúvidas e objeções de seus leitores.
Os textos Três ensaios de uma teoria da sexualidade (1905); Inibição, Sintoma e Angústia (1926), e alguns textos metapsicológicos, como O Inconsciente (1915), podem a esse respeito serem considerados dogmáticos: neles há uma construção do caminho percorrido, da gênese até a concretização de suas descobertas. Em contraponto, há também textos mais genéricos, cujos resultados são apresentados em suas versões finais, com poucas informações sobre como foram alcançadas.
De forma abrangente, é possível pensar em três aspectos do estilo de escrita freudiano: o de remontar a própria origem, o olhar para o leitor e a impressão de encontrar-se no presente, de maneira que o narrado pareça estar acontecendo diante do leitor. Essa característica é muito evidente nos relatos dos casos clínicos, cujos registros envolvem a vida do paciente, os seus sonhos, o tratamento e a teorização do psicanalista.
Nos casos clínicos temos ainda outra característica marcante de estilística: traços da cultura oral, que aumentam a vivacidade da escrita, marcando o tom da conversa por autorreferências e revelações do que pensa o escritor.
Há ainda nos escritos freudianos a presença do playfulness. Um exemplo é o trecho de uma carta redigida para o psicanalista Oskar Pfister (1873-1956): “o trabalho e o livre jogo da imaginação constituem para mim a mesma coisa”. A soma de todas essas características influencia o leitor de maneira a fazê-lo aceitar como verdade o que o autor apresenta como hipóteses, mostrando a importância de não ler seus textos com um “olhar desarmado”.
Nos Estudos sobre a Histeria (1893-1895), mais especificamente nos casos clínicos apresentados, Freud admite que as vidas de suas pacientes foram descritas de modo a se parecerem com romances, e que foi necessário, de sua parte, alguma habilidade para escrevê-los.
O historiador Michel de Certeau (1925-1986) aponta três elementos principais na construção da narrativa freudiana: a primeira característica é a própria definição do “romance”, que no texto freudiano consiste em combinar os sintomas da doença e a história do sofrimento, ou seja, Freud combina uma semiologia baseada na identificação das estruturas patológicas com os acontecimentos relacionais que surpreendem e alteram o modelo estrutural. Quando Freud adota essa forma de produção textual, abandona o modelo de Jean-Martin Charcot (1825-1893) de apresentação de casos, que consistia, basicamente, em observações feitas a partir da coleta de dados.
Disso podemos concluir que a articulação entre semiologia e sofrimento é também uma articulação entre clínica e cultura, permitindo que possamos pensar os casos clínicos da histeria, por exemplo, como concepções de “feminilidade” da época vitoriana, investigando por que e de que forma a sociedade da época produzia e reconhecia essa modalidade de sofrimento.
O segundo fator proposto pelo historiador é a interação que Freud estabelece com seu interlocutor. A posição por ele representada em seu texto serve de quadro teórico para selecionar e interpretar os dados fornecidos pelo doente. O sistema de uma doença é uma configuração patológica; então, o romance “clínico” irá resultar da relação que o sofrimento do outro introduz nesse quadro.
Por último, Certeau pontua que a concepção de escrita de Freud nos ensina a ler seus outros textos. Isso permite enxergar a narrativa como uma relação entre a estrutura e os acontecimentos, possibilitando portanto enxergá-la como parte de um sistema, bem como o vestígio desse sistema em algo diferente.
Faz-se necessário lembrar que não há um “corte essencial” entre essas três operações. As três instâncias ocorrem ao mesmo tempo: as afirmações do paciente, uma obra literária e o próprio discurso psicanalítico.
A partir do exposto, temos que a experiência clínica seria a mistura entre a teoria e o acontecimento, o que possibilita colocar a narrativa a serviço do modus operandi da psicanálise.
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Créditos da ilustração
Montagem a partir de imagens dos “Sigmund Freud Papers”, disponíveis online na “Library of Congress”.


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