Por Daniel Felipe
O lançamento de uma Antologia Pessoal (2023) de Dalton Trevisan (1925), com contos escolhidos pelo autor, é um convite para que qualquer leitor que tenha alguma intimidade com sua obra pense acerca de sua própria seleção de uma produção trevisanesca essencial.
Nesse sentido, me parece válido colocar no holofote um texto seminal como “Debaixo da Ponte Preta” — que, curiosamente, não entrou no volume. A ficção, lançada em O Vampiro de Curitiba (1965), narra o estupro coletivo sofrido por “Ritinha da Luz, dezesseis anos, solteira, prenda doméstica”.
A Ponte Preta em questão é um ponto conhecido da região central da cidade de Curitiba — informação que alimenta essa relação entre cidade e texto ficcional, entre dentro e fora da diegese, tão cara ao escritor. No conto, porém, a localização escolhida é apenas um ponto de partida para uma construção textual que coloca em tensão discursos e realidade, a partir da pluralidade dos pontos de vista.
Vejamos um trecho:
Miguel de Tal, quarenta anos, casado, foguista, largou o serviço às dez e meia. Ao cruzar a linha do trem, avistou três soldados e uma dona em atitude suspeita. Sentiu um tremendo desejo de praticar o ato. Aproximou-se do grupo e, auxiliado pelos soldados, agarrou a desconhecida, retirando-lhe a roupa e com ela mantendo relação, embora à força. Derrubou-a e, para abafar os gritos, tapou-lhe o rosto com o casaco de foguista. Saciado, ajudou os soldados que, cada um por sua vez, usaram a moça, observados à distância por alguns curiosos, até que dois deles também se serviram da negrinha.
Miguel, arrependido do mau gesto, se ofereceu para casar com a menina, só na delegacia soube chamar-se Ritinha, isto é, tão logo apronte os papéis do desquite, de momento é casado.
Assim como o de Miguel, há pontos de vista de outros acusados — inclusive um jovem Nelsinho, ainda projeto de Vampiro. A narrativa se delineia a partir desses relatos que lembram uma espécie de relatório policial, e que também guardam parentesco com a tomada de depoimentos da imprensa policialesca.

Dalton Trevisan jovem. Foto: Divulgação/Editora Record
As oposições declaratórias revelam um jogo de meias-verdades e mentiras que, quase sempre, confluem para tentar afirmar uma conivência ou até mesmo uma culpabilização da vítima. Seja pela crueza do conteúdo, seja pela fina tessitura das tomadas declaratórias, o quase sexagenário “Debaixo da Ponte Preta”, do quase centenário Dalton Trevisan, é dotado de impressionante atualidade.
Fizeram o que bem quiseram, largada bastante ferida no seio e nas partes, até que o guarda-civil a encontrou, queixosa de frio e dor.
O guarda-civil Leocádio, ao passar debaixo da Ponte Preta, viu uma negrinha chorando.
Por trás dos relatos, o que resta é a atrocidade materializada no corpo da adolescente Ritinha da Luz.
Antologia Pessoal
Quanto à Antologia Pessoal, é válido dizer que a perspectiva macro que a publicação nos traz evidencia aos leitores as sutis, graduais e coerentes transformações de sua produção — algo que, lendo um ou outro livro isoladamente, e por trás de tantos Joões e Marias, acaba passando batido. Essa colocação se reporta tanto aos personagens e temáticas quanto à linguagem.
Dalton Trevisan criou ao longo de suas décadas em ação um universo próprio, que opera como um grande painel — repleto de nuances, nos revela a Antologia. Nesse painel, lemos histórias que direta ou indiretamente conversam entre si. Algo muda, algo permanece nessa Curitiba ficcional.


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