Blecaute, de Orlando Facioli

Por Gustavo Denani

Em sua trilogia de livros The Southern Reach, Jeff Vandermeer apresenta uma ecologia cujo aspecto alienígena (o que não quer dizer que veio de outro planeta) tem uma relação mais que hostil com os humanos que nela adentram. Não se trata somente de uma ameaça física frontal e simétrica, como alguém que se depara com um predador em uma floresta, mas sim de uma dissolução do humano em seu corpo e percepção. Para quem assistiu ao filme baseado no primeiro livro, exemplos dessa dissolução são ilustrados na voz humana que ecoa na garganta de ursos grotescos e nos fungos que brotam ferozmente na medida em que a vida e a humanidade vão se esvaindo de um corpo.

Esse processo não é somente uma mudança fisiológica de distorção sobre o aparato sensorial-cognitivo humano, mas uma transformação recíproca entre sujeito e ambiente. Mais do que fissuras ontológicas naquilo que entendemos como natureza e cultura, o próprio espaço-tempo descrito no livro se distorce na interação humano-ecologia. Com isso, pela angustiante experiência de imaginar o desconhecido em seu sentido mais abismal, somos apresentados a uma inteligência e agência não-humanas capazes de transformar, virar do avesso e manipular os que nela vivem.

Não há uma solução ou final feliz na história de Vandermeer. Tal como na crise ambiental que atravessamos, pensar em uma reconciliação com a natureza ou avançar de uma vez por todas com a mediação tecnológica que fazemos sobre ela não apagará os microplásticos e extinções que habitam nossos corpos e consciência. A irreversibilidade do estrago demanda uma renegociação dos termos de convívio e sobrevivência entre seus agentes moderno-capitalistas e aqueles consumidos e degradados por esse modo de vida.

Com isso, para além de um eco-moralismo ou fetichismo do não-humano, Blecaute, vídeo de Orlando Facioli, tensiona a centralidade da agência humana e os sentidos que ela pode produzir. Composto de sequências saturadas de signos, elas alternam entre a centralidade de elementos da natureza, como uma chama, uma aranha e uma flor, e elementos humanos, notadamente o olho (o sentido por excelência da modernidade e elemento central em outros trabalhos de Facioli). É justamente pelo olho que o trabalho interpela o observador, particularmente pelo aspecto ruidoso presente nas cenas, de modo que o foco é constantemente perturbado por recursos digitais, como os de glitch art.

Sobretudo, Blecaute é um trabalho poluído pelo excesso do não-humano e o residual humano. Querer ver um sem o outro torna-se um esforço inútil, e talvez esse seja um recado escondido no trabalho. Tal como o último livro da da trilogia de Vandermeer, Acceptance, talvez aceitar que as coisas se misturem seja um ponto de partida para viver com o problema, parafraseando Haraway.

Isso, no entanto, é só metade da história. Do mesmo modo que a ecologia alienígena ativamente transforma os personagens de Vandermeer, o meio no qual feixes de luz de um trabalho se projetam não é neutro. Para os que tiveram a oportunidade de presenciar, esse foi o caso de Blecaute na Radar, uma mostra itinerante de arte, cuja edição deste ano ocorreu em um palacete na rua Piauí, em São Paulo. Sua projeção foi feita nas folhas das árvores que compõem o jardim, de modo que as imagens se fragmentam em filamentos, deixando-as à deriva do vento. Observá-las torna-se um esforço de recodificação sobre o meio não convencional e uma negociação de sentido entre as folhas e seus interstícios. Imagens que seriam inequívocas em uma superfície trivial tornam-se incertas e fugidias, de modo que luz e folha associam-se em uma colaboração frágil. São em alianças difíceis como essa que um trabalho de arte pode explorar outros sentidos.

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