Do cinema, da expectativa e do gosto homogêneo

Por Daniel Felipe

Anos atrás, em uma versão beta deste mesmo website, publiquei um texto, hoje perdido, em que defendia certa homogeneização do gosto a partir do cinema “feito” para festivais internacionais, composto por obras criadas sob medida para nutrir certo perfil de espectador-consumidor exigente, com sua dose de entretenimento inteligente, isto é, aquele que faz pensar. Trata-se de algo que, conforme defendi na ocasião, era particularmente visível no cinema nacional de ficção contemporâneo – o qual, vale dizer, se posiciona passos atrás do documentário, em termos de inventividade e investigação de linguagem.

Sem pormenorizar aqui a argumentação proposta à época, e tampouco trazendo elementos analíticos que tentem provar o meu ponto do texto de outrora, rememoro, antes, uma analogia que nele esbocei: a comparação possível detrás do aparente contraponto entre o trabalho produzido para ter sucesso, digamos, em Cannes, ante aquele que é realizado para os padrões de uma premiação como o Oscar. Cannes representaria certo Olimpo do bom cinema; o Oscar, por sua vez, um reconhecimento de um filme por suas qualidades enquanto produto. Uma provocação preguiçosa, afinal, ainda é uma provocação

Pois bem: com O Agente Secreto (2025), o diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho conseguiu precisamente transitar pelos dois ambientes. Não que a produção seja, necessariamente, um exemplar desse gosto homogêneo a que me refiro – pelo contrário. Em suas quase três horas de duração, a obra acompanha o protagonista Armando a partir da construção de um panorama de certo Brasil dos anos 1970, por meio de uma narrativa que se esboça aos poucos, ora de modo quase episódico, ora fazendo uso de certos interlúdios. Esse caráter de painel, que vai do macro (Brasil) ao micro (Armando), agrega à película certa atmosfera envolvente, fundada em uma dúvida que demora a se pronunciar: há um mistério no ar; mas qual mistério é esse, de fato? Para onde essa trama vai nos levar? A luta do protagonista é pela sobrevivência, mas também pela memória (familiar) e pela História (coletiva).

Do ponto de vista narrativo, O Agente Secreto vai por caminhos bastante distintos em relação a Bacurau (2019), longa-metragem ficcional anterior de Mendonça. Quanto ao trabalho da década anterior, é possível dizer que seu roteiro se configura como verdadeira aula de manual de roteirização, com as viradas de seus atos bem demarcadas, e tendo como grande trunfo o trânsito entre gêneros (western, suspense, ficção científica), cuja mescla ganha forte teor político a partir do embate entre o local (o interior do Brasil) contra o global (que tenta consumir o local, mas acaba vencido por ele).

Esse embate, note-se, também se delineia a partir do uso da linguagem: a mescla de gêneros é ainda um exercício de demonstração de cinefilia por parte de seu realizador, que coloca em relação a eles (ou os confronta?) um território e uma fabulação nacionais, articulando uma sintaxe que notadamente copula com o cinema americano.

Nesse sentido, vale lembrar que o cinema brasileiro pós-retomada consegue existir com constância e, como consequência, a precariedade perde seu caráter de elemento constituinte de sua própria sintaxe – a qual, de modo radical, se alimentou da fome e do lixo em seus momentos mais fecundos, chegando por vezes até mesmo a colocar em xeque a narrativa facilmente deglutível em favor de experiências estéticas por vezes mais áridas, e sem dúvidas dotadas de evidentes potências semânticas. Há aqui, portanto, uma cisão em relação ao que de mais significativo a produção nacional do século XX realizou.

O gosto, os festivais e a cadeia de distribuição da obra

O cinema de Kleber Mendonça Filho é representativo da época na qual ele se insere, e de suas condições de produção. Os filmes brasileiros, aqueles mais destacados, se globalizaram – o que é equivalente a dizer que, em alta medida, joga-se um jogo do world cinema, que eleva e destaca certas produções, ao mesmo tempo em que as relega a certo nicho, que delas espera que transitem dentro de determinadas expectativas, dentro de certa pré-fabricação do gosto.

Mendonça transita dentro desse escopo? Sim, mas talvez, ou provavelmente, consiga transcendê-lo. Como corolário de sua trajetória ao longo dos últimos meses, tivemos repercussões as mais diversas, com muitas delas capitalizando em cima de seu trabalho. Se ganhar três prêmios em Cannes já foi um dia sucesso suficiente a um realizador, as conquistas no Globo de Ouro geraram verdadeira ânsia nacional em torno de potencial vitória no prêmio da Academia. Para muitos dos detratores ou dos apoiadores, a presença do filme, ali, seria a régua de seu sucesso.

O apoio ou a torcida pelo fracasso, muitas vezes, ou na maioria das vezes, vieram de razões completamente externas à obra em si: ora fruto da necessidade de validação, coisa de um complexo de vira-latas; ora pelo asco conservador a ideologias de esquerda. Pelo viés do burburinho social gerado em torno do trabalho, pode-se dizer que a carreira do filme, a partir do ponto de vista de sua cadeia de distribuição, pavimentada por meio do trânsito pelo circuito internacional de festivais, saiu vencedora nessa história.

Curioso é quando a dimensão do burburinho social adentra o espaço que, em tese, deveria ser de repercussão crítica. Esse é o caso de um texto veiculado na Folha de S. Paulo na manhã do dia em que seria divulgado o resultado do Oscar. Seu redator, um historiador que pesquisa música sertaneja, é taxativo ao elencar que o cineasta só teria bajuladores à sua volta, e que o filme “repete vários problemas dos filmes dramáticos anteriores do diretor pernambucano”. Segundo ele, Kleber seria um grande diretor, mas um péssimo roteirista. Exemplos disso seriam as histórias paralelas,

como a da autópsia do tubarão, a do alemão no cinema e a do casal de angolanos refugiados, que são completamente supérfluas. Mesmo a bela cena inicial, muito louvada, não diz nada que outras cenas seguintes também não digam sobre a violência da sociedade brasileira no ano de 1977, quando se passa o filme. Fica parecendo um colecionismo de boas filmagens sem conexão com a história que se quer narrar. Mero virtuosismo masturbatório de fazer cinema”.

Para o autor, “se O Agente Secreto tivesse 50 minutos a menos daria até um filme OK. Entre as centenas de pessoas que trabalham com o pernambucano, não há uma alma para dizer que o fato de ele ser um bom diretor não o faz ser um bom roteirista?”. E assim, no espaço da reflexão crítica, o cinema, como forma expressiva, fica reduzido a um mecanismo de fruição, de gozo. Logo, não sobra espaço para validar uma obra cujo final traz ao espectador um anticlímax. Tempo é dinheiro, e a avaliação da obra se propõe, antes, a dizer ao leitor se a criação a ser consumida vale mesmo um passeio. O que diz, claro, mais sobre os nossos tempos do que sobre a produção que foi realizada.

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